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O Estado da Arte

Publicado em: abril 6th, 2011 por Leo Morel | Nenhum comentário

Interessante artigo publicado por Leonardo Brant no site Cultura e Mercado.

Uma das questões mais difíceis no desenvolvimento das políticas culturais é saber dosar o tamanho do Estado. Ausente, coloca o imaginário nas mãos do poder econômico, com seus enlatados e facsímiles da realidade. Em um outro extremo quer opinar, anseia mudar a sociedade (muitas vezes à despeito dela própria) a partir de uma visão particular de cultura (ou ideologia). Torna-se fascista.

Teixeira Coelho, em seu Dicionário Crítico, define políticas culturais como um conjunto de intervenções. Recentemente, ouvi o próprio autor reconsiderar essa premissa, indicando a cooperação como o caminho mais adequado para aplicar ações programáticas no campo cultural.

Cooperação é algo muito delicado, sobretudo quando praticada com dinheiro público. O investimento necessário e indispensável mistura-se facilmente no balaio do privilégio. A força (simbólica e material) do  Erário compromete sensivelmente a ação cultural “patrocinada”: cumplicidade, simpatia e adesão ideológica são moedas correntes de troca, tão intangíveis quanto a própria ação cultural. Quando a decisão de quem deve ou não receber o dinheiro cabe ao governante, ou a uma comissão definida e coordenada por ele, configura-se um balcão de negócios com o dinheiro público.

Na cultura, a função econômica se confunde cada vez mais com a função social. Já não sabemos distinguir tão claramente onde começa um e termina outro. A indústria cultural se protege por trás da contrapartida social; a arte experimental alcança cada vez mais galerias, telas e palcos comerciais; o popular e o pop são transas cada vez mais frequentes. Sincretismo cultural, político e mercadológico.

O modelo de desenvolvimento escolhido pelo Brasil de Collor, Itamar, FHC, Lula e Dilma é o econômico. Do neoliberal ao neossocialismo democrata, o Estado brasileiro pós-ditadura colocou arte e cultura ora como produto, ora como instrumento de conquista, reafirmação e ascenção social. Em nenhum momento, porém, chegamos perto de garantir, por força e poder do Estado, os direitos e liberdades culturais a todos os cidadãos, como quer a nossa Constituição Federal.

O povo nunca foi no Brasil o beneficiário final da política cultural. O Estado atende (como nos tempos de repressão) a clientes avulsos ou organizados. Fundos, incentivos, editais: um instrumento diferente para cada clientela, cada vez mais sofisticada e segmentada. Todos raivosos e descontentes com o cobertor curto, que não cresce na mesma velocidade dos novos mercados, criados e cultivados por vontade política do Estado. Nem mesmo o gordo orçamento do ano eleitoral é capaz de conter e atender a todas as demandas e necessidades, legítimas ou não, dessa vasta clientela.

Cidadania cultural também se faz com mercado, pois garante maior autonomia ao artista. Acesso cultural se faz sobretudo com desenvolvimento econômico e consumo. No Brasil, direitos culturais são cada vez mais garantidos com autonomia financeira e cada vez menos pela atuação direta do Estado. A este cabe apenas garantir condições de crescimento econômico.

A fusão entre cultura e mercado, forçada pela sociedade do consumo e do espetáculo (filhos perversos desse modelo de desenvolvimento), coloca a função educativa da cultura em xeque. Superar esse abismo filosófico, conceitual, estratégico, significa inverter uma lógica relacionada à formação do Estado republicado, suas elites e estamentos.

Por isso, a política cultural não pode ser pensada a partir dos setores econômicos, dos profissionais e classes organizados. E sim a partir de uma nova concepção de Estado, que atenda aos interesses maiores de formação do povo brasileiro, que precisa ser municiado de referências, valores éticos, olhares críticos e diversificados da realidade, do passado, presente e futuro.

Fonte original aqui.

O mercado de shows, patrocínios e critérios.

Publicado em: agosto 16th, 2010 por Leo Morel | Nenhum comentário

Estive presente na sexta-feira passada no Seminário “Modelos de Negócios na Música – Novos Canais de Distribuição” realizado pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE/RJ) do Rio de Janeiro em parceria com o coletivo Ponte Plural.
O evento que acontecerá entre os meses de agosto a dezembro, teve na mesa inaugural as presenças de FABRÍCIO OFUJI (produtor da banda Móveis Coloniais de Acaju), TALLES LOPES (representante da ABRAFIN, Circuito Fora do Eixo e produtor do Festival Jambolada), ADILSON PEREIRA (Jornalista cultural, ex-editor da Revista Outra Coisa e Programador do Circo Voador) e GABY MORENAH (Produtora do Circo Voador) que debateram o tema “O Mercado de Shows e Festivais e sua Influência na divulgação do artista e distribuição de seus produtos”, sob mediação de DANIEL DOMINGUES, coordenador do Núcleo de Negócios do coletivo Ponte Plural.

Cada participante expôs um pouco da sua experiência profissional no mercado da música e abordou de que maneira novas bandas e artistas devem procurar desenvolver suas carreiras nesse campo sob o mecanismo do planejamento e autogestão. Foi tratada de forma unanime a noção de que aquele mundo onde as grandes gravadoras serviam como única forma de um trabalho musical ser desenvolvido e massificado já não é mais o mesmo e que os artistas e produtores de festivais foram obrigados a se adaptar a essa nova realidade.

Assim como foi abordado no meu livro “Música e tecnologia: um novo tempo, apesar dos perigos”, foi bastante comentado no Seminário a noção de que atualmente as bandas e os artistas tiveram de acumular tarefas que vão além do trabalho musical quando se almeja o desenvolvimento de uma carreira no mercado.

O que me chamou atenção foi o discurso da produtora da casa de shows Circo Voador, Gaby Morenah, ao abordar a atual maneira de realizar eventos culturais, mais precisamente na área da música. Segundo ela, o aumento dos custos de produção marcado principalmente pela pesada carga tributária incidente nesse tipo de atividade ocasionou a dependência de patrocínios para viabilizar tais eventos. E, da mesma forma como trato no livro, ela esclarece que muitas empresas que patrocinam projetos culturais muitas vezes buscam se associar a eventos que propiciem uma boa divulgação de suas marcas e, com isso, preferem investir em shows e festivais que contem com nomes consagrados da música brasileira que geralmente atrai público.

No meu livro questiono o papel de empresas que nunca tiveram ligação com o setor cultural passem a ser essenciais na cadeia produtiva da música. Além disso, também debato no livro o critério de seleção desses agentes para investir em festivais de música e carreiras musicais. É muito mais rentável investir em grandes nomes da música para se ter retorno desejado de uma marca, mas será que esse apoio baseado muitas vezes nos mecanismos de renúncia fiscal é justo? A cultura que sempre dependeu de algum tipo de investimos necessita desse tipo de operação para poder sobreviver, mas me questiono se isto está tornando o mercado musical cada vez mais dependente e viciado nesse tipo de operação.