Artigo publico por Sergio Filho no site Overdubbing:
Às vezes, me perguntam sobre a coerência de uma banda de rock (ou qualquer outro estilo) ao vivo. Coisas do tipo “como conseguir deixar o som ‘redondo’?”. Por isso, trago nesse artigo uma abordagem a que me dei o direito de chamá-la “o pulo do gato“.
Quem já está nessa vida de banda há algum tempo sabe o quanto é difícil encontrar os integrantes certos. Aqueles caras (ou, mais comum hoje em dia, meninas) que fazem a diferença no som. Além disso, têm que ser bons de convivência e pensar na mesma direção. Ora, tanta gente passa a vida inteira dando com a cara na parede por causa de seus relacionamentos a dois (não só amorosos, como também entre pais e filhos, patrão e empregado, etc.), o que dirá em um relacionamento a quatro/cinco!? Muitas bandas famosas, inclusive, já sofreram desse mal (quem nunca viu, assista “Some Kind of Monster“, do Metallica).
Indiscutivelmente, leva-se tempo para se conhecer bem o indivíduo que está pegando a estrada com você, mas isso não é motivo para neuroses do tipo “não confio em ninguém”. É apenas uma questão de tranquilidade e transparência nas suas relações.
Mas, voltando ao âmbito pragmático, onde quero chegar é nos ensaios. Tocar as mesmas músicas por longos períodos (às vezes muito longos mesmo) pode ser chato. Você não vê mais para onde aquilo pode evoluir. Mas é aí que mora o “pulo do gato“. Existem basicamente três estágios no aprendizado musical em banda (isso eu digo por experiência, e não por nenhum estudo científico sobre cognição cerebral). O primeiro é aquele em que você precisa tocar prestando muita atenção naquilo que está fazendo. Esse é o ponto em que se faz o arranjo da música, se for própria, ou se “tira” o cover. Aqui, você ainda não está familiarizado com a parte técnica da execução da música. Se você é guitarrista, erra um acorde, esquece uma parte da música, “capa” um solo. Se você é baterista, esquece um bumbo aqui, outro ali, sai do tempo um pouquinho. Se você é baixista, provavelmente vai se enrolar naquele “groove” mais safado. Se você canta, fatalmente vai esquecer a letra.
Depois de muito ensaiar, todo mundo começa a tocar direito a música. Este é o segundo estágio. Aqui, todo mundo acha que já está bom. Nunca parece melhorar muito mais. Você já até se balança tocando. E aqui, muita gente para de buscar a evolução. Acontece que não basta dominar tecnicamente aquilo que se toca. É preciso fazer parte daquilo, incorporar a música. Mesmo se você é um sideman, e nem curte tanto aquilo que está tocando, é preciso estar 100% presente e íntegro. Afinal, se você é músico, deve ter escolhido essa profissão porque ama, certo? Se quisesse ganhar dinheiro, é fato que não estaria buscando isso nesta área…
O terceiro estágio é aquele em que a música passa por dentro de você. Você a respira e transpira. Você não vai mais errar nenhum acorde porque simplesmente nem vai pensar qual acorde está tocando. Ele simplesmente aparece montado no braço da guitarra na hora certa. É aí que você alcançou o “pulo do gato“. Uma boa maneira de comprovar isso é quando você se pega há muito tempo sem tocar aquela música e, no entanto, na hora do ensaio, sai tudo perfeitinho. Não é lindo?
A dica é: mantenha-se presente naquilo que você faz (isso se estende pra tudo na sua vida, ok?). Aproveite aquele exato segundo em que você toca aquela nota. Faça mesmo como se não houvesse nada depois nem tivesse havido nada antes, porque de fato não há. O passado já passou, o futuro nem chegou. Nem um segundo antes, nem um segundo depois. Somente no agora! Ao alcançar esse estágio, você vai perceber como misteriosamente a sua banda soa verdadeira, “redonda” e com toda a energia necessária para tocar qualquer um que esteja na plateia!
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