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Eu ligo o rádio e blá, blá…

Publicado em: fevereiro 7th, 2011 por Leo Morel | Nenhum comentário

Artigo publicado por mim na minha coluna “Mídias musicais” do site Overdubbing:

Recentemente, andou circulando pela internet a participação do cantor e compositor Lobão em um programa da rádio Transamérica de São Paulo. A participação dele acabou se tornando um excelente debate acerca do papel dos veículos tradicionais de comunicação, como o rádio e a TV, para a cadeia produtiva da música nos dias de hoje. Muito tem se falado que com o advento da internet, que deu suporte ao surgimento de novas tecnologias, incluindo as rádios digitais e plataformas como YouTube e MySpace, tais veículos teriam perdido a importância que já possuíram no passado.

Lobão defende que o rádio ainda é de grande importância para o desenvolvimento de carreiras artísticas no Brasil e que esse veículo continua sendo, muitas vezes, restrito a artistas que possuem o suporte de agentes do setor que pagam para executar suas músicas. Por mais que a internet tenha gerado benefícios no que tangem a democratização proporcionada pelos veículos digitais de divulgação, o rádio e a TV continuam sendo utilizados para estimular o consumo de um segmento artístico financiado por interesses coorporativos.

O acesso facilitado aos meios de produção e divulgação musical deu oportunidade para aqueles que têm interesse em se inserir no mercado musical, porém, para desenvolver uma carreira profissional no Brasil ainda é necessário ter acesso aos meios tradicionais de comunicação. Com base nisso, Lobão acrescenta que tais veículos atualmente encontram-se interligados, defendendo que:  “… a TV aclama o que o radio divulga que foi farejado na internet. São três estágios, e todos são interligados.”

Além disso, ele lamenta o fato de não existir nos dias de hoje uma estação de rádio com o perfil da extinta Rádio Fluminense, que executava novos artistas nos horários de maior audiência e foi responsável por lançar uma geração de grandes talentos da música popular brasileira nos anos 80. Quando se trata do acesso restrito aos tradicionais veículos de comunicação, o discurso de Lobão bate com o abordado por Mauro Dias em seu artigo “Sobre o Jabá”:

“Não há questão moral a ser considerada. O negócio é dinheiro. Um bom compositor, cantor, instrumentista, vai ter de se submeter a determinados imperativos (ditados pelos que pagam a execução), ou fica de fora. Quem não entrar no esquema não aparece. Quem quer entrar no sistema precisa ter muito dinheiro – precisa pagar mais ainda, porque as “vagas” são limitadas. Se entra um, sai outro. (…) Só quem entra no esquema, claro, é a grande indústria, que tem o dinheiro – e que inventou o esquema, afinal. (…) Ou seja, estamos falando de economia, de lobbies, de pressões, não de música. Enquanto isso, o ouvinte vai acostumando o ouvido com as barbaridades criadas nos laboratórios de marketing das companhias de disco e perde a capacidade de comparar. E os criadores… Bem, os criadores, os artistas verdadeiros, que existem, quase ninguém sabe, vão resistindo o quanto podem. Um dia, desistem – os novos Chicos e Caetanos, as novas Elis Reginas e Nanas Caymmis, os novos Jobins e Fátimas Guedes um dia desistirão. Precisam comer, vestir-se, sustentar filhos. A ganância dos executivos está promovendo um massacre da cultura brasileira que talvez não tenha similar na história da humanidade. Estão matando de fome o que temos de mais rico – nossa música. Matando de fome a inteligência e a sensibilidade.”

(Disponível em: http://www.digestivocultural.com/ensaios/ensaio.asp?codigo=129&titulo=Sobre_o_Jaba)

Vale ressaltar que o referido artigo foi originalmente publicado no jornal Estado de São Paulo, em 1999, ou seja, há mais de dez anos e vemos que, apesar disso, pouca coisa mudou. Ainda sobre o papel do rádio nos dias de hoje, alguns artistas reclamam que tais veículos também são responsáveis por ditar a forma como suas composições devem ser adaptadas para serem executadas. O cantor e compositor Jay Vaquer comentou o assunto em entrevista concedida a mim para meu livro Música e tecnologia: um novo tempo, apesar dos perigos, defendendo  que: “Eles (agentes das rádios) são gênios da lâmpada criando loucuras. Como pode acontecer uma renovação se as condições de acesso estão vinculadas ao poderio econômico por trás das carreiras?”. Já o cantor Leoni, também em entrevista cedida a mim para o livro, ressalta que “…ele (o rádio) ainda é importante porque o mercado ainda não se adaptou a essa nova fase.

Baseada nessa nova fase do meio musical, marcada pela utilização da internet como um eficiente meio de divulgação, a produtora Liana Brauer, que trabalha na LIGA Entretenimento, responsável por artistas como Lulu Santos, Preta Gil e a banda Scracho, diz que grande parte das bandas que conseguem atualmente desenvolver um trabalho profissional a partir da utilização da internet opta por investir suas receitas obtidas com os shows em divulgação nos veículos tradicionais de comunicação. Ou seja, usa-se a internet para se divulgar um trabalho, e a receita gerada com shows é voltada para pagar a divulgação no rádio (jabá) e TV. Alguma dúvida sobre a importância de tais veículos nos dias de hoje?

Com isso, vemos que apesar de toda a evolução tecnológica, que gerou grandes alterações na sociedade e consequentemente no meio musical, nem tudo mudou. Por mais que se fale da democratização da internet, os interesses coorporativos continuam ditando as regras do mercado e percebe-se que nos últimos anos pouco se evoluiu nesse campo. É bom frisar que estamos em período de mudança de gestão presidencial e registro aqui a importância de se debater tais condutas que, a meu ver, são criminosas e ferem um dos principais valores da identidade nacional: a música brasileira. Fica aqui meu apelo para Ana de Hollanda, atual ministra da Cultura, para que se discutam tais questões. Ou seria caso para o Ministério da Justiça?

Resultados concretos em cenário de “caos” fonográfico

Publicado em: janeiro 10th, 2011 por Leo Morel | Nenhum comentário

Nessa semana publiquei esse artigo na minha coluna “Mídias musicais” do site Overdubbing:

Foi-se a primeira década do século XXI, e percebe-se que o mercado musical ainda busca alternativas para se adaptar às mudanças surgidas desde o final do século passado, responsáveis pelo declínio de um homogêneo modelo de negócio consolidado pela indústria fonográfica. Se até em um passado recente era bastante clara a forma como a música era escoada como bem de consumo para um mercado consumidor definido, o que se vê ao início de 2011 é a sensação de instabilidade ainda calcada na busca de modelos substitutos que possam solucionar muitos dos obstáculos encontrados em virtude das mudanças vistas.

Nos últimos anos, observou-se o surgimento de algumas iniciativas inovadoras que buscam criar novas alternativas para o desenvolvimento da cadeia produtiva da música. Uma banda que tem obtido resultados concretos com a implementação de estratégias de trabalho que utilizam como base as tecnologias disponíveis é a banda carioca Forfun. Esse conjunto, que vem conquistando cada vez mais seguidores pelo Brasil, realiza sua divulgação exclusivamente na internet e possui sua própria estrutura de trabalho, formada por profissionais de diferentes áreas, como especialistas em marketing digital, técnicos, produtores e o empresário, Marcos Sketch.

Danilo Cutrim, vocalista da banda, em entrevista pessoal para meu livro Música e tecnologia: um novo tempo, apesar dos perigos, comentou sua estrutura de trabalho: “Montamos uma gravadora que é nossa, com outros padrões financeiros e com outras crenças também”. É importante frisar que a receita obtida com as apresentações da banda viabiliza essa estrutura de trabalho: “A gente faz um fundo e dele sai tudo: assessoria de imprensa, assessoria de TV, etc”.

Atualmente, enquanto a Forfun prepara o lançamento de seu novo disco, seu empresário Marcos Sketch realizou um balanço dos resultados obtidos com o último disco da banda, o Polisenso, disponibilizado para download gratuito no site oficial. Ele defende que “por mais que soubesse que o disco fosse parar de qualquer forma em mp3 na internet, acho que a oficialização do download (gratuito) permitiu uma disseminação mais rápida e ainda maior. O alcance que o disco teve com o ‘download oficializado’ fez o som da banda chegar a pessoas e lugares que não chegaria se fosse feito de qualquer outra forma”.

Sketch relatou que no período de dois anos foram contabilizados 700 mil downloads do disco inteiro, baixado diretamente no site oficial da banda, e acredita que, além desses downloads oficiais, por meio da divulgação boca a boca feita pelos fãs e das redes de compartilhamento, o álbum tenha chegado à mão de mais de um milhão de ouvintes. E ressaltou, ainda, que nesses dois anos de trabalho com o Polisenso, a banda obteve a maior receita de toda sua carreira, fez a maior quantidade de shows/ano e tocou em dezenas de cidades por onde a banda nunca havia tocado.

Com isso, podemos ver que já existem iniciativas bem sucedidas no Brasil. Acredito que o nicho do mercado musical jovem, também chamado de teen, esteja ajudando a reescrever as diretrizes do mercado musical brasileiro, pois vemos que estratégias similares às adotadas pela Forfun vêm atingindo resultados bastante promissores.