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Sem baixar

Publicado em: abril 13th, 2011 por Leo Morel | Nenhum comentário

Artigo bem interessante publicado por  Tatiana de Mello Dias no jornal O Estado de S. Paulo:

Faz um tempo que a música está online. Além de comprar um CD ou baixar um arquivo, surgiu uma terceira opção: escutar um disco sem tê-lo: os arquivos ficam gravados em servidores externos. O modelo prosperou e hoje é visto como o filão mais promissor do ainda incipiente mercado de música digital.

É que, entre os modelos de consumo de música que já surgiram, o streaming parece ser o que mais deu certo. Tome como exemplo o Spotify. O site sueco criado em 2007 já é uma das maiores empresas de internet no mundo. Um milhão de pessoas foram convencidas a pagar por música – dos 10 milhões de assinantes, 10% optam pelo modelo pago. Isso só na Europa.

Por trás do Spotify está a emblemática presença de Sean Parker, um dos criadores do Napster e investidor da web – hoje talvez mais conhecido como o investidor do Facebook interpretado por Justin Timberlake no filme A Rede Social.

Ele disse em um debate no ano passado que o Spotify é uma forma de “consertar o estrago que comecei com o Napster”. “Temos de criar um novo modelo.” Para Parker, o streaming dá às pessoas o que elas querem: conveniência e acessibilidade. Ouvir música quantas vezes quiser, de graça, a partir do seu computador.

Só que o Spotify ainda não conquistou um território crucial para determinar seu futuro. Faltam os EUA. O serviço ainda não chegou a um consenso com as gravadoras para custear os direitos autorais e garantir sua legalização por lá. Mas Parker já mexeu seus pauzinhos: ele acaba de se tornar, junto a um grupo de investidores, acionista da Warner e, assim, tem voz ativa em pelo menos uma das grandes gravadoras que precisará convencer.

Google e Amazon seguem a mesma trilha. Em palestra recente, o presidente da Motorola, Sanjay Jha, deixou escapar que o Google lançará um serviço de música para smartphones e tablets. “Se você olhar para os serviços móveis do Google, há o de vídeo, há o de música, quer dizer, vai haver um serviço de música”, disse. O player para Android acaba de ser atualizado – e, na versão 3.0, o streaming ganhou o espaço mais nobre do display.

Os passos da Amazon são mais concretos. A empresa acaba de anunciar o CloudDrive, serviço online de armazenamento em que usuários podem guardar até 5 GB de conteúdo de graça e acessá-lo de qualquer dispositivo. Dá para comprar ainda mais espaço – até 1 TB. E, com ele, o CloudPlayer, aplicativo que permitirá a reprodução de músicas armazenadas ali. É possível, por exemplo, criar listas de reprodução. O CloudPlayer já está disponível para celulares Android.

No Reino Unido, a Universal deve lançar em breve um serviço streaming com a Virgin Media. “O streaming é diferente de download. Você está falando da compra de 175 milhões de músicas avulsas ao ano no mercado de downloads comparadas a 7 bilhões de transmissões de música por streaming pago”, diz David Joseph, principal executivo da Universal. “Streaming e modelos de assinatura são o futuro do negócio.”


No Brasil. Aqui ainda há poucas opções para quem que quer pagar para ouvir música em streaming. Embora o acesso ao ótimo Grooveshark seja liberado (veja ao lado), não há planos de trazer o Spotify para cá – apesar de o modelo parecer promissor para indústria fonográfica aqui.

“Nos EUA, o download unitário funciona bem por causa do iTunes. É uma solução verticalizada, mas é um player da Apple que deu certo, tem preço acessível, tudo direitinho. No Brasil, com toda a relação da cadeia de valores, o download unitário fica caro”, explica Miguel Cariello, gerente do Escute, serviço de música online da Som Livre. O site tem assinaturas que variam de R$ 5 a R$ 15 para acesso ao catálogo em streaming e download. “Ao sair do modelo de entrega de produto e passar para um modelo de serviços, chega-se a um preço mais justo para o consumidor, além de manter todo mundo remunerado.”

Carrielo não diz quantos assinantes o serviço tem. O número é baixo, diz ele, porque o serviço acabou de estrear e o consumidor ainda está “começando a entender” o modelo. “A gente ainda tem a coisa de ter a música no computador. Mas, mesmo assim, o streaming é a grande execução.” Segundo ele, 80% do público opta pelo plano de R$ 15, que permite acesso a todo o catálogo (três milhões de músicas) em streaming e download.

Além do Escute, há também o Sonora, do Terra, e sites como o Kboing, que fornecem diferentes maneiras de consumir música. Mas os dois maiores – o Sonora e o Escute – têm “uma lista grande de desrespeito ao consumidor”, segundo estudo inédito do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec). O instituto avaliou os serviços Escute, Sonora e UOL Megastore (que não tem streaming) e percebeu problemas como arquivos cujo DRM bloqueia o uso após o fim da assinatura ou a transferência de arquivos do PC para o celular e a exigência do pagamento de um pacote para quem quer adquirir apenas uma música.

No entanto, acima de todos os problemas, está a propaganda que leva o consumidor a pensar que o serviço ilimitado – quando, na verdade, ele é cheio de restrições. “A propaganda é uma tentativa de retomada da indústria fonográfica, que perdeu muito por fazer essa campanha contra quem faz download”, diz Guilherme Varella, advogado do Idec. “A lei de direito autoral abre essa margem para a empresa atuar de forma abusiva”.

Parece simples: basta um modelo fácil e acessível para que a música digital vire um bom negócio, certo? Nem sempre. Boas intenções existem, mas um fator que restringe a criação de novos serviços e a universalização dos que já existem: os direitos autorais. “É trabalhoso. Lá fora todos trabalham com copyright: usa e paga. Aqui, tem de pedir autorização para depois vender. Sofremos com a burocracia”, diz Miguel Cariello, gerente do Escute.

No Brasil, a cobrança por direitos autorais é feita pelo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), que criou, no ano passado, um mecanismo específico de cobrança pela execução e transmissão de música digital. O cálculo é trabalhoso. O Ecad tem várias tabelas para definir o valor do pagamento.

Um site como o Spotify, que tem como principal serviço a música e é lucrativo, teria de pagar 7,5% de sua renda ao Ecad por mês (o valor mínimo estipulado pelo escritório é R$ 2.348). O Spotify poderia arcar com isso; mas uma startup que esteja tateando o mercado, talvez não.
Os meios digitais representam menos de 1% da arrecadação do Ecad, mas são um dos segmentos que mais crescem. “Estamos desbravando essa área agora”, explica Márcio Fernandes, gerente de arrecadação do Ecad.

Os maiores arrecadadores na área digital são o YouTube e o Kboing, serviço de músicas custeado por publicidade. Mas o filé mignon é o acordo com o Google, firmado em 2010 e que rende ao Ecad o equivalente a 2,5% do faturamento do YouTube no Brasil.

O valor, claro, não vai para todos os músicos que têm músicas ali. O Ecad adotou uma regra de distribuição que leva em conta o número de acessos. A distribuição dos recursos é baseada nos rankings do YouTube. O Ecad definiu uma linha de corte: só é pago o artista que tiver um número de views suficiente para receber pelo menos R$ 1.

Ou seja: quem mais lucra com direitos autorais no maior acordo de música digital já firmado no Brasil é, quem diria, Justin Bieber. Os artistas pequenos não recebem nada. “A gente não tem como pagar todas as músicas”, justifica Fernandes.

Para ele, o grande passo do acordo não é a verba, mas o fato de que o Google aceitou a lei brasileira. “O Google se apropria de conteúdo, pega brechas jurídicas, e aqui entendeu que a lei é precisa”, diz. O acordo, para ele, é “um grande passo para incluir os artistas que estão de fora”. “Quem compõe com seriedade pode encarar a internet como uma possibilidade, mas é preciso se filiar e declarar as suas músicas. A gente vai aumentar os rankings”.

Um quarto do conteúdo de vídeo consumido nas casas dos EUA é via streaming. O mercado de transmissão online é promissor também para a indústria cinematográfica. Nesse cenário, seis em cada dez filmes vistos por streaming são da Netflix, que era uma locadora de DVDs via correio e hoje é um serviço com mais de 20 milhões de assinantes.

A produtora e distribuidora Miramax acaba de fechar acordo com a Netflix – estimado em US$ 100 milhões – para dispor seus filmes no site. Estima-se que a Netflix valha hoje cerca de US$ 10 bilhões; e o segundo gigante do mercado, o Hulu, US$ 2 bilhões.

Segundo a consultoria ABI Research, o mercado de vídeos online deve movimentar US$ 16,1 bilhões entre serviços pagos e publicidade.

A Amazon, que acaba de lançar um serviço de armazenamento online, apresentou sua resposta à Netflix: fornecerá filmes e programas de TV em streaming para clientes premium, usuários que pagam US$ 79 ao ano para ter acesso a 5 mil títulos.

O Google também deve entrar nesse mercado, via YouTube. Segundo o Wall Street Journal, deverão ser criados 20 canais de conteúdo exclusivo no site, com categorias como esportes e arte, com programação semanal. A ideia é que as pessoas assistam vídeos na web como fazem na TV. A empresa deve investir US$ 100 milhões no projeto.

Os serviços ainda estão distantes do Brasil. Mas há rumores de que a Netflix estaria vindo para cá. Recentemente, em seu site de oferta de empregos, a empresa avisou que está se preparando para uma “rápida expansão internacional” e exigia dos candidatos fluência em inglês e línguas como alemão, francês, italiano, japonês, coreano, português e espanhol – pistas das regiões para as quais pretende se expandir.

Fonte original aqui.

Resultados concretos em cenário de “caos” fonográfico

Publicado em: janeiro 10th, 2011 por Leo Morel | Nenhum comentário

Nessa semana publiquei esse artigo na minha coluna “Mídias musicais” do site Overdubbing:

Foi-se a primeira década do século XXI, e percebe-se que o mercado musical ainda busca alternativas para se adaptar às mudanças surgidas desde o final do século passado, responsáveis pelo declínio de um homogêneo modelo de negócio consolidado pela indústria fonográfica. Se até em um passado recente era bastante clara a forma como a música era escoada como bem de consumo para um mercado consumidor definido, o que se vê ao início de 2011 é a sensação de instabilidade ainda calcada na busca de modelos substitutos que possam solucionar muitos dos obstáculos encontrados em virtude das mudanças vistas.

Nos últimos anos, observou-se o surgimento de algumas iniciativas inovadoras que buscam criar novas alternativas para o desenvolvimento da cadeia produtiva da música. Uma banda que tem obtido resultados concretos com a implementação de estratégias de trabalho que utilizam como base as tecnologias disponíveis é a banda carioca Forfun. Esse conjunto, que vem conquistando cada vez mais seguidores pelo Brasil, realiza sua divulgação exclusivamente na internet e possui sua própria estrutura de trabalho, formada por profissionais de diferentes áreas, como especialistas em marketing digital, técnicos, produtores e o empresário, Marcos Sketch.

Danilo Cutrim, vocalista da banda, em entrevista pessoal para meu livro Música e tecnologia: um novo tempo, apesar dos perigos, comentou sua estrutura de trabalho: “Montamos uma gravadora que é nossa, com outros padrões financeiros e com outras crenças também”. É importante frisar que a receita obtida com as apresentações da banda viabiliza essa estrutura de trabalho: “A gente faz um fundo e dele sai tudo: assessoria de imprensa, assessoria de TV, etc”.

Atualmente, enquanto a Forfun prepara o lançamento de seu novo disco, seu empresário Marcos Sketch realizou um balanço dos resultados obtidos com o último disco da banda, o Polisenso, disponibilizado para download gratuito no site oficial. Ele defende que “por mais que soubesse que o disco fosse parar de qualquer forma em mp3 na internet, acho que a oficialização do download (gratuito) permitiu uma disseminação mais rápida e ainda maior. O alcance que o disco teve com o ‘download oficializado’ fez o som da banda chegar a pessoas e lugares que não chegaria se fosse feito de qualquer outra forma”.

Sketch relatou que no período de dois anos foram contabilizados 700 mil downloads do disco inteiro, baixado diretamente no site oficial da banda, e acredita que, além desses downloads oficiais, por meio da divulgação boca a boca feita pelos fãs e das redes de compartilhamento, o álbum tenha chegado à mão de mais de um milhão de ouvintes. E ressaltou, ainda, que nesses dois anos de trabalho com o Polisenso, a banda obteve a maior receita de toda sua carreira, fez a maior quantidade de shows/ano e tocou em dezenas de cidades por onde a banda nunca havia tocado.

Com isso, podemos ver que já existem iniciativas bem sucedidas no Brasil. Acredito que o nicho do mercado musical jovem, também chamado de teen, esteja ajudando a reescrever as diretrizes do mercado musical brasileiro, pois vemos que estratégias similares às adotadas pela Forfun vêm atingindo resultados bastante promissores.