Por um mundo (da cultura) melhor?

Publicado em: novembro 17th, 2011 por Leo Morel | Nenhum comentário

Uma matéria recentemente publicada no jornal Correio Braziliense relatava que o festival Rock in Rio teria recebido irregularmente R$12,3 milhões através da Lei Rouanet, política de incentivo fiscal que possibilita que empresas (pessoas jurídicas) e cidadãos (pessoa física) apliquem uma parte do IR (imposto de renda) devido em ações culturais. A reportagem argumentava que o referido montante fere os princípios da democratização e descentralização defendidos pelo Ministério da Cultura por se tratar de um evento com fins lucrativos e cobra maior contrapartida dos produtores do evento. Leia a reportagem na íntegra.

Com relação às denuncias apontadas, cabem aos órgãos competentes de controle fiscalizar e tomar as medidas cabíveis, visto que uma nova edição do festival está programada para o ano de 2013 e deve-se evitar que tais procedimentos se repitam. Porém, esse não é o foco deste artigo. Pretendo aqui refletir se a Lei Rouanet vem realmente proporcionando o fomento da cultural brasileira de maneira acertada.

Como mencionado anteriormente no artigo A banda mais bonita: modelo colaborativo que dá lucro, o setor cultural sempre dependeu de financiamento para se sustentar. No passado, Leonardo da Vinci e Mozart dependiam do mecenato para exercer suas funções. Já nos dias de hoje, as leis de incentivo fiscal tornaram-se essenciais para viabilizar projetos. Porém, de acordo com a legislação vigente, fica a critério dos agentes do setor privado decidirem o destino de tais recursos e, por conta disso, questiono até que ponto é correto que uma empresa possa decidir onde, no setor cultural, será aplicado o dinheiro público. Como assegurar que tal mecanismo não contribua primordialmente para a divulgação de marcas em vez de fomentar a democratização e o acesso aos bens culturais?

Em entrevista ao Correio da Cidadania, o produtor cultural Jorge Nunes, com experiência na coordenação do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), afirma que o motivo de grande parte das empresas patrocinarem projetos é a exposição da marca. Ele afirma que: “…na verdade, o que move as empresas no fomento aos projetos, em primeiríssimo lugar, é o retorno institucional, ou seja, a associação do produto e da marca da empresa a um evento de categoria, que tenha importância e desperte interesse da população.” E quando se trata da diversidade cultural, o produtor alega que existe uma concentração de aplicação de recursos no eixo Rio-São Paulo. Leia o texto na íntegra.

A Lei Rouanet está em processo de alteração na Câmara dos Deputados, em Brasília, e está sendo avaliada pela Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC), formada por representantes da sociedade civil, setores culturais e governo, responsável pela avaliação e aprovação de projetos pleiteantes ao incentivo. É um momento bastante oportuno reavaliar o papel de tais incentivos, corrigir os desvios percebidos e buscar tomar medidas que objetivem o fomento da cultura brasileira com a finalidade de que interesses meramente corporativos não fiquem em primeiro plano. Sonhar não custa nada.

O mesmo tipo de tratamento deve ser posto em prática na questão da meia entrada para o ingresso a eventos culturais. Nos dias de hoje, a maioria dos eventos culturais (shows, peças de teatro, cinema, etc.) vem utilizando o preço da meia entrada como base de cálculo para equilibrar suas planilhas de custos, fazendo com que o preço cheio seja na verdade o dobro do que deveria ser. Tal política também necessita ser revista, pois, assim como aconteceu com os incentivos fiscais, percebeu-se a ocorrência de vícios, como mostra o artigo “Brasil atrai indústria de shows com ingressos mais caros do mundo” do site Cultura e Mercado (leia aqui).

O momento de prosperidade econômica pelo qual vem passando o Brasil acarretou a vinda de grandes eventos esportivos ao país como a Copa do Mundo e as Olimpíadas e de festivais de música de grande porte como o Rock in Rio. Não seria mais do que necessário repensar nossas políticas culturais, “por um mundo melhor”?

Seminário Internacional Música Independente no contexto Pós-Crise

Publicado em: setembro 28th, 2011 por Leo Morel | 1 comentário

Serei um dos palestrantes desse seminário. Estarei presente na mesa “Música em rede: ampliando a visibilidade e protagonismo?” que acontece dia 3/10, às 17:30.

Os especialistas reunidos neste seminário internacional não se propõem propriamente a discutir o conceito de indie ou o nível de autonomia dos chamados atores independentes em relação à grande indústria. Na realidade, mais do que discutir os limites do mundo indie, eles buscam realizar um breve balanço do impacto das transformações que vêm ocorrendo nos negócios da música nos últimos anos, seja nas bordas ou mesmo fora do mainstream.

Para o desenvolvimento de suas reflexões tomam como referência alguns exemplos expressivos que estiveram ou estão em curso em várias localidades do globo (na Europa, nos EUA, na América Latina e, especialmente, no Brasil). Afinal, transcorrida mais de uma década desde que os atores sociais passaram a conviver com a sensação de que esta indústria cultural estaria vivendo uma crise sem precedentes, é possível constatar que, de fato, o business da música passa mais propriamente por um processo bastante significativo de transição e de reestruturação.

A discussão dos desafios e das perspectivas da música independente no âmbito das indústrias midiáticas reunirá pesquisadores do Brasil, Inglaterra e da Espanha – países onde a reconfiguração da indústria ocorre de modo mais pronunciado –, estabelecendo um diálogo entre academia e atores sociais e buscando alternativas para dinamizar os circuitos culturais mobilizados por estas manifestações artísticas num contexto pós-crise.

INSCREVA-SE: http://seminariomusicaindependente.wordpress.com/inscricoes/

Programação:

1º dia – 03 de outubro (2ª feira)

8:00 – 9:00 horas – Credenciamento

9:00 – 10:00 horas – Mesa de abertura

Alessandra Aldé (UERJ)

Luis A. Albornoz (UC3M)

João Pedro Dias Vieira (UERJ)

Micael Herschmann (UFRJ)

10:00 – 12:00 horas – Conferência I

Samuel Araújo (UFRJ) – Música, política e sociedade em movimento: desafios e potenciais da crise global

12:00 – 14:00 horas – Almoço

14:00 – 17:00 horas – Mesa 1 – Nas bordas e fora do mainstream

Moderador: Marcio Gonçalves (UERJ)

Santuza Cambraia Naves (PUC-RJ) - O alternativo no mainstream: a tropicália entre Smetak e Muzak

Julio Diniz (PUC-RJ) - Nomadismo e trânsito na produção cultural contemporânea

Olívia Bandeira de Melo e Oona Castro (Overmundo) – Apropriação de tecnologias e produção cultural: inovações em cenas musicais da Região Norte

Luís A. Albornoz (UC3M) – Apontamentos sobre a trama empresarial espanhola independente

17:00 – 17:30 horas – Coffe break

17:30 – 20:00 horas – Mesa 2 – Música em rede: ampliando a visibilidade e protagonismo?

Moderador: Marildo Nercolini (UFF)

Leo Morel (autor do livro Música e Tecnologia)

Daniel Domingues (Coletivo Ponte Plural/Circuito Fora do Eixo)

Abel do Cavaco (Grupo musical Antigamente)

Jefferson Andrade Silva (Grupo musical Passarela 10)

2º dia – 04 de outubro (3ª feira)

9:00 – 10:00 horas – Conferência II

Andrew Dubber (Universidade de Birmingham) – Música como cultura na Era Digital.

10:00 – 13:00 horas – Mesa 3 – (Re)intermediação dos negócios da música

Moderador: José Ferrão (UERJ)

Leonardo de Marchi (UFRJ) – Discutindo o papel da produção independente brasileira no mercado fonográfico em rede

Juan Ignácio Gallego (UC3M) – Novas formas de prescrição musical

José Ángel Esteban (UC3M) – Música independente espanhola nas rádios

Marcelo Kischinhevsky (UERJ) – Rádio e musica independente no Brasil

13:00 – 14:30 horas – Almoço

14:30 – 17:30 horas – Mesa 4 – Revisitando a dinâmica de circuitos e cenas

Moderadora: Liv Sovik (UFRJ)

Cíntia SanMartin Fernandes (UERJ) – Musicabilidade no Rio de Janeiro: o samba e choro nas ruas-galerias do Centro

Simone Pereira de Sá (UFF) – Aspectos da economia musical popular no Brasil: o circuito do funk carioca

Felipe Trotta (UFPE) – “Tradicional é na capital”: a circulação do forró pé de serra no Recife

Micael Herschmann (UFRJ) – Ruas que cantam: ativismo seresteiro e desenvolvimento local em Conservatória

17:30 – 18:00 horas – Coffe break

18:00 – 20:30 horas – Mesa 5 – Novos business da música

Moderador: Eduardo Granja Coutinho (UFRJ)

Felipe Llerena (Imusica)

Paulo Monte (Bolacha Discos)

Adilson Pereira (Coordenador do Circo Voador)

Daniel Koslinski (Grupo Matriz)

Carlos Mils (Vice-Presidente da ABMI)

Bruno Levinson (Oi FM)

20:30 – 21:30 horas - Coquetel e lançamento da coletânea Nas bordas ou fora do mainstream. Novas tendências da Música Independente no início do século XXI (Editora Estação das Letras e das Cores). Local: Auditório do RAV, no Campus da UERJ.

22:00 horas – Festa de confraternização no Teatro Odisséia (na Lapa) com as bandas Ganeshas, Destemido Walace e Passarela 10, a partir das 22h. Gratuito.

‘A banda mais bonita da cidade’: modelo colaborativo que dá lucro

Publicado em: julho 28th, 2011 por Leo Morel | Nenhum comentário

Grupo arrecada com fãs mais de R$52mil para gravação do primeiro disco

Depois de se tornar um fenômeno na internet devido à disseminação do vídeo da música Oração, que já registra mais de seis milhões de acessos, A Banda mais bonita da cidade apostou na força das redes sociais e na comunicação direta com seu público para gravar seu primeiro CD. Por meio de um sistema de financiamento colaborativo (conheça aqui o site), os fãs puderam escolher quais canções farão parte do novo trabalho, tendo como vantagem o acesso a benefícios que variam de acordo com a quantia por eles fornecida. Ao contribuir com R$10,00 (valor mínimo estipulado), por exemplo, a pessoa ganhará o direito de receber a música por ela selecionada assim que a mesma ficar pronta. Já por R$300,00 (valor máximo), o colaborador poderá assistir a gravação da música.
Após trinta e quatro dias na Catarse, plataforma especializada em financiamento colaborativo, a Banda, por meio de sua assessoria de imprensa, divulgou que das doze músicas colocadas no site, onze atingiram o valor solicitado para a gravação. No total, foram 903 colaboradores de 155 cidades do Brasil. Do exterior, registraram-se contribuições de fãs de países como Portugal, Estados Unidos e Itália. A cifra arrecadada ultrapassou R$52 mil e a maior parte veio de pessoas que doaram R$25,00 e em troca irão receber o CD da banda. O mapa abaixo aponta de onde foram feitas as contribuições em território brasileiro:

Segundo sua assessoria, esse material será lançado ainda em 2011 e as gravações acontecerão entre julho e agosto. Além disso, como proposta da banda, todas as músicas serão documentadas em vídeo, onde apenas quatro das onze serão em estúdio, todas as demais serão realizadas em locações diversas.

Com a crise do modelo de negócios estabelecido pela indústria fonográfica e a ascensão de novas tecnologias, A Banda mais bonita da cidade encontrou uma excelente maneira de financiar os custo de produção de um disco e ao mesmo tempo promover a aproximação direta com seu público. Aproveitou-se o momento em que a música Oração se tornou um fenômeno viral na internet, responsável por colocar a banda em evidência, para contar com a contribuição de fãs nessa empreitada e o resultado foi bastante promissor, visto que o montante arrecadado lhes permitirá realizar seu primeiro CD utilizando uma boa infraestrutura de gravação.

As artes sempre necessitaram de algum tipo de financiamento para se sustentar. Leonardo da Vinci e Mozart, por exemplo, dependiam do Estado para trabalhar e, em tempos mais recentes, a indústria fonográfica teve esse papel de investidor no mercado da música durante grande parte do século XX e início do XXI. Atualmente, muitos artistas encontraram nas redes sociais e na aproximação com seu público uma excelente ferramenta para auxiliá-los a financiar suas carreiras e, no Brasil, muitos também vêm buscando investimento via políticas de leis incentivos fiscais. Pelo fato de não ter surgido um modelo de negócio hegemônico, como o implementado pelas gravadoras no passado, tornou-se necessário buscar novas e criativas maneiras de se trabalhar no mercado musical, e exemplos como o da Banda mais bonita da cidade podem servir como referência para outros artistas e demais agentes da cadeia produtiva da música.

Artigo publicado originalmente no O Globo online em: http://oglobo.globo.com/blogs/overdubbing/posts/2011/07/21/banda-mais-bonita-da-cidade-modelo-colaborativo-que-da-lucro-393614.asp

É preciso saber viver (de música)…

Publicado em: junho 8th, 2011 por Leo Morel | Nenhum comentário

Gravadoras em crise, queda na venda de CDs e download de músicas na internet. Desde o final do século passado, o mercado musical não é mais o mesmo. E o que os músicos estão fazendo para sobreviver no século XXI?

O processo de evolução tecnológica gerou significativas alterações na cadeia produtiva da música, ocasionando o declínio de um modelo de negócio que foi hegemônico durante grande parte do século passado baseado na ascensão da indústria fonográfica. Se, até então, a maioria dos artistas da música popular dependia de tais agentes como investidores para desenvolver suas carreiras, como atuar nos dias de hoje em um cenário em que esse artista é cada vez mais responsável pela gestão e financiamento de seu trabalho? De que forma uma banda cria condições para financiar seu trabalho e tirar seu sustento nos dias de hoje?

Primeiramente, é importante observar que o mercado musical tem diversos nichos e diferentes formas de inserção. O produtor musical e instrutor de cursos gerenciais Leonardo Salazar, em seu livro Música Ltda: o negócio da música para empreendedores (http://www.musicaltda.com.br/), classifica esses estágios, agrupando os músicos da seguinte maneira:

- Músico amador: aquele que exerce uma atividade profissional fora da área musical para se sustentar, sendo a música uma atividade “extra”, podendo tirar ou não remuneração dela.

- Semiprofissional: aquele que ganha remuneração com a música, mas necessita de outra atividade econômica para tirar seus rendimentos a fim de equilibrar seu orçamento.

- Profissional: aquele que vive exclusivamente de música, sendo essa sua principal fonte de renda.

Muitos exercem a profissão da música sem necessariamente viver exclusivamente dela. O compositor Guinga, por exemplo, dividiu durante muito tempo sua carreira musical com a de dentista e Vinícius de Moraes foi diplomata. Também é comum um músico utilizar seus rendimentos adquiridos fora do âmbito musical para investir em sua carreira artística.

Atualmente, são bastante variadas as possibilidades de trabalho na área musical, muitos atuam em diferentes nichos do mercado para tirar seu sustento e são raros aqueles que vivem exclusivamente de uma única atividade profissional. Grande parte dos músicos busca desenvolver diferentes especializações para aumentar suas oportunidades de trabalho. Um instrumentista pode, por exemplo, ter seu repertório autoral próprio, acompanhar outros artistas como contratado, realizar gravações e dar aulas. Para um técnico de som, por exemplo, existe a possibilidade de trabalhar com sonorização em casas de show e também gravar bandas em estúdios. As combinações podem variar de acordo com a aptidão e aspiração de cada um. O produtor Salazar aponta em seu livro algumas destas possibilidades profissionais do setor musical atualmente:

- Banda autoral;
- Banda tributo, ou cover;
- Banda, ou orquestra de baile;
- Sonorização para eventos:
- Montagem de estrutura;
- Empresariamento artístico (management);
- Agenciamento (booking);
- Produção executiva (show, ou disco);
- Produção de turnê (tour manager);
- Técnica (som, luz, palco);
- Direção artística (disco ou show);
- Casa de show, teatro, boate, bar (música ao vivo);
- Produção fonográfica (gravadora);
- Edição musical (editorial);
- Distribuição de discos (distribuidora);
- Comércio de discos, DVD e afins;
- Comércio de instrumentos, equipamentos e acessórios;
- Fabricação e reparo de instrumentos, equipamento e acessórios;
- Composição (autor);
- Instrumentista, ou intérprete (tocando/cantando/gravando para terceiros);
- Cantor independente (voz e violão);
- Arranjador;
- Maestro;
- Trilha sonora (publicidade, jogos, teatro, cinema, moda);
- Dj (rádio, show, festa, boate);
- Sinfônica (emprego público);
- Ensino (licenciatura);
- Estúdio de ensaio;
- Estúdio de gravação;
- Estúdio móvel;
- Mixagem;
- Masterização;
- Replicação de mídia (vinil, CD, DVD);
- Organização de eventos (festivais, concursos, prêmios, shows);
- Marketing cultural (elaboração e captação de projetos musicais);
- Design (capas de disco e material gráfico);
- Web (programação ou design para o setor);
- Assessoria de imprensa (especializada em música);
- Produtora de vídeo (clipes, documentários, DVDs);
- Tecnologia da informação (produtos para o setor).

Assim, são muitas as opções disponíveis no mercado da música para se trabalhar e vale ressaltar que uma opção não exclui a outra, pois um músico pode administrar sua carreira realizando diferentes funções de acordo com sua agenda e aspirações profissionais. Na verdade, nos dias de hoje a realidade impõe o músico a “se virar nos trinta”, ele faz de tudo um pouco, sendo uma verdadeira metamorfose ambulante. Além de tocar, ele se vê obrigado e ter noções de áreas que fogem do universo musical como gestão e marketing, por exemplo. Para tal, existem algumas publicações no Brasil que podem auxiliar a lidar com essas questões e a entender melhor esse novo mundo da música. Em breve pretendo tratar disso por aqui (por ora, outra dica legal também é acompanhar aqui no Overdubbing a coluna do Fernando Moura sobre o dia-a-dia dos trabalhos na música).


Resposta do ECAD às denúncias

Publicado em: maio 25th, 2011 por Leo Morel | Nenhum comentário

ECAD colocou um site no ar para responder as denúncias feitas recentemente na imprensa. O artigo abaixo foi publicado lá:

O que está por trás das denúncias contra o Ecad

Em julho de 2009, seis empregados da Caixa Econômica Federal foram presos, depois de descoberto um esquema fraudulento que desviou R$ 13 milhões da instituição financeira para a quadrilha.  Nesse mesmo ano, funcionários do departamento de marketing do Banrisul foram detidos pela Polícia Federal, acusados de roubarem R$ 10 milhões utilizando operações de superfaturamento em materiais publicitários. Casos como esses acontecem aos montes, independente do porte das empresas e dos controles internos utilizados para evitar situações dessa natureza. E todas essas ocorrências são resolvidas no âmbito interno das empresas, através dos instrumentos legais e de coerção policial.

O Escritório Central de Arrecadação e Distribuição – Ecad não está imune a eventuais tentativas de fraudes, assim como qualquer outra empresa que movimente cifras elevadas e conte com um quadro numeroso de funcionários. O que difere o Ecad de qualquer outra organização comercial, no entanto, é a exploração política que se faz sempre que algum ato isolado é detectado.

Não importa se todos os procedimentos corriqueiros a este tipo de situação são tomados. Talvez pela própria natureza da entidade, e dada a importância dos interesses dos envolvidos – autores, compositores, músicos, entre outros artistas – eventuais deslizes e má conduta isolados ganham manchetes e pedidos de CPI.

O pano de fundo dessa questão não é moral. É econômico. E o que está em jogo é a luta pelo direito de receber o que os criadores entendem ser justo pelo uso de suas músicas por poderosos conglomerados de comunicação, empresas prestadoras de serviços de televisão por assinatura, provedores de conteúdo, diversos tipos de usuários de música.

Lamentavelmente, essas grandes empresas usam do seu poder de fogo como detentoras do monopólio da comunicação no País e naturais influenciadoras da opinião pública para disseminarem informações incorretas e tendenciosas, que só servem para defenderem o direito que julgam possuir contra o dos artistas que com suas músicas valorizam as suas grades da programação.

Buscam ainda através da divulgação de notícias difamatórias, instrumentalizar o Congresso Nacional, induzindo alguns políticos ao erro de querer tratar casos envolvendo uma entidade privada – e resolvidos em fórum adequado – em escândalo passível de Comissão Parlamentar de Inquérito.

O Ecad, no legítimo direito de restabelecer a verdade, não se calará. E é por esse motivo que a verdade se restabelece aqui, ao longo desta página.

Fonte orginal aqui.

Ecad deve ser investigado por duas CPIs

Publicado em: maio 23rd, 2011 por Leo Morel | 2 comentários

Artigo publicado na Folha de S. Paulo – 23/5/2011 – Por Roberto Kaz:

A Assembleia Legislativa do Rio vai instalar, na próxima terça-feira, uma CPI para investigar o funcionamento do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad). A proposta partiu do deputado estadual André Lazaroni (PMDB-RJ).

Em Brasília, o senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) propôs outra CPI, no Senado, para investigar o Ecad.

André Lazaroni disse que a CPI na Assembleia é uma resposta à sucessão de denúncias que vem recaindo sobre o Ecad, responsável por distribuir direitos de obras musicais a seus compositores.

No último mês, o Ecad foi acusado de pagar R$ 127,8 mil a Milton Coitinho dos Santos, que assinava a autoria de composições. A Folha localizou Coitinho em Bagé (RS). Ele é motorista de ônibus, afirma não tocar “nem gaita” e nunca ter recebido a soma da entidade.

Há, ainda, outras denúncias de fraude, como a de 2004, em que R$ 1.140.198 de crédito retido (dinheiro que deveria ser distribuído igualmente entre todos os compositores) foi transformado em receita do escritório.

Procurada pela Folha, a superintendente do Ecad, Glória Braga, não quis se manifestar sobre as denúncias.

Por meio da assessoria, a entidade declarou que publicará, hoje, uma nota que não só esclareça o caso mas também aponte para os interesses do grupo Globo no Ecad.

O grupo é o principal autor das denúncias, por meio de reportagens de “O Globo”. E corre no Superior Tribunal Justiça uma ação movida pela TV Globo contra o Ecad.

A emissora tenta manter o valor mensal pago à entidade (R$3,8 milhões) contra o resjuste para R$ 10,4 milhões exigido pelo Ecad. Em um ano, a TV Globo teria de pagar o equivalente a 27% do total recebido pelo Ecad em 2010 (R$ 433 milhões).

Procurada pela Folha, a TV Globo informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que não se posicionará antes de tomar conhecimento do conteúdo da nota do Ecad prevista para hoje.

Lazaroni diz só ter tomado conhecimento da disputa entre Globo e Ecad após a aprovação da CPI. “Soube na quinta-feira passada. E não tenho nada a ver com essa briga. Minha preocupação é em agir de acordo com o interesse dos compositores.”

Já o senador Rodrigues diz ter sido procurado pela diretoria do Ecad justamente em função da disputa judicial com a Globo.
“Falei que eles deveriam tornar isso público. Se o artista brasileiro recebe menos por causa da Globo, é um assunto que interessa à CPI.”

Fonte original aqui.

O videoclipe não é mais como antigamente?

Publicado em: maio 9th, 2011 por Leo Morel | Nenhum comentário

Artigo publicado por mim na minha coluna Mídias Musicais do site Overdubbing.

Se no passado o videoclipe foi considerado um eficaz instrumento de marketing e foco de grandes investimentos de agentes da cadeia produtiva da música, vemos que o cenário atual sofreu grandes alterações. Enquanto que a indústria do disco apresenta sucessivos prejuízos com base na queda da venda de seus produtos, assistimos a popularização da tecnologia capaz de registrar e disponibilizar acervo audiovisual. Com isso, observou-se o volume de informação disponível gratuitamente aumentar de forma exponencial. Para muitos artistas e pessoas ligadas ao meio musical, o grande desafio nos dias de hoje é chamar a atenção do público em meio a um mar quase infinito de músicas e vídeos.

E em meio a esse “caos”, qual seria o papel do videoclipe nos dias de hoje? Que alterações foram percebidas com o advento de tecnologias capazes de registrar e disponibilizar com facilidade acervo audiovisual? Para entender esse momento, busquei conversar com dois profissionais ligados ao setor musical e de vídeo: o primeiro é o músico, DJ e jornalista musical Melvin Ribeiro (twitter.com/melvin) e o outro, o videomaker e diretor de arte Grima Grimaldi (www.grimagrimaldi.com/).

Grima defende que nunca foi tão fácil produzir um vídeo: “… meu filho e a namorada são músicos, eles estão sempre gravando seus videoclipes aqui em casa e disponibilizando o material na internet. As novas câmeras digitais de vídeo e fotografia que gravam em alta resolução e som digital têm feito com que essa produção caseira venha melhorando gradativamente a qualidade sem precisar gastar muita grana.”

Além disso, o diretor de arte acredita que tais inovações contribuíram para alterar as configurações do mercado, visto que teriam ajudado, na visão dele, a enfraquecer barreiras restritivas impostas por agentes do setor. Ele comenta: “… eu acredito que a melhor maneira de divulgar um trabalho de vídeo atualmente é utilizar as redes sociais gratuitas. Isso é proveitoso não só para o artista, mas principalmente para o público, pois não terá mais de depender exclusivamente de um programador da TV, que recebe seu jabá, para consumir cultura. Passamos anos sendo obrigados a assistir e a ouvir o que as rádios, as TVs e as gravadoras nos impunham. Alguns agentes da indústria não esperavam que essa concorrência viesse de forma tão forte e com tanta produção de qualidade”, destaca Grima.

Já o músico Melvin Ribeiro acredita que as emissoras de TV perderam seu interesse pelos videoclipes por conta do grande volume de material produzido nos dias de hoje e defende que se no passado o investimento na produção dessa ferramenta era essencial para o desenvolvimento de uma carreira profissional, e estimular as vendas de discos, hoje em dia ele crê que o foco mudou. “Antigamente, as bandas faziam um videoclipe com o intuito de passar sua imagem estética para o público e alavancar a venda de discos. Hoje em dia, vários artistas acham que vale mais a pena usar técnicas do marketing viral com o intuito de atrair a atenção de indivíduos que normalmente não se interessariam pela banda por simples questão de empatia musical. Pra mim, o caso de maior sucesso que retrata isso é o vídeo da música Pork and beans, da banda norte-americana Weezer.”

Uma das razões atribuídas ao sucesso de audiência desse videoclipe é o fato da banda aparecer interagindo com diversos vídeos que ficaram famosos na internet na época de seu lançamento, em 2007. Para Melvin, essa iniciativa fez a banda ficar conhecida entre pessoas que vão além do público tradicional do Weezer.

http://www.youtube.com/watch?v=cfOa1a8hYP8

Outro exemplo é o da música Lotus Flower da banda Radiohead, em que o vocalista Tom York aparece dançando uma coreografia que causou espanto de muita gente: “…eles (Radiohead) podiam ter feito um videoclipe lindo, maravilhoso, bem fotografado e ninguém ia querer saber a respeito, mas o Tom York dançando vira uma notícia que sai da esfera dos fãs e passa a ser comentada por mais gente. E é a partir daí que surge a chance de outras pessoas passarem a conhecer a banda.”

Assim, percebe-se que o barateamento ao acesso a ferramentas de produção e divulgação de vídeo e música possibilitou a produção de acervo audiovisual a custos menores. Além disso, vemos que mesmo com todas as mudanças de cenário apontadas, o videoclipe ainda é uma ótima forma de divulgar um trabalho musical. O desafio nos dias de hoje é transformar uma boa ideia em um bom produto e disseminá-lo no mundo virtual para gerar frutos no mundo real.

Fonte original aqui.

Não é intervenção

Publicado em: abril 30th, 2011 por Leo Morel | Nenhum comentário

Artigo publicado no Portal Clipping do Ministério do Planejamento.

Autor(es): AGENCIA O GLOBO:Dado Villa-Lobos

O Globo – 29/04/2011

Odebate sobre a reforma da lei de direitos autorais proposto pelo MinC, em 2010, que ficou 75 dias em consulta pública, tem seguido caminhos tortuosos. O que o anteprojeto de lei defende – e nós também – é que a gestão coletiva no Brasil, hoje exercida pelo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), volte a ser regulada pelo Estado. Não se deve confundir fiscalização com intervenção. Na maioria dos países desenvolvidos é assim: as entidades de gestão coletiva, que administram dinheiro de terceiros por meio de um monopólio concedido pelo Estado, são fiscalizadas por este. Se por um lado é compreensível a necessidade de centralização da arrecadação e da distribuição, por outro são essenciais a regulação e a fiscalização deste “direito de exclusividade” por uma instituição externa.

Neste passo, além da transparência tão almejada por nós, autores, o Estado poderá exigir a correta cobrança dos direitos autorais. Com valores justos, a inadimplência, sempre anunciada como sendo o maior problema do Ecad, vai naturalmente diminuir. Por que então não apoiar essas medidas? No lugar de poucos pagando muito, teremos muitos pagando um pouco menos. Com isso ganhamos todos. O número elevado de ações na Justiça tratando de direito autoral diminuirá, beneficiando os envolvidos na cadeia produtiva e também a toda sociedade.

Outro grande benefício de termos o Estado como guardião do processo autoral é que dele nós, cidadãos, podemos nos queixar. Porém, de uma associação privada, que não tem nenhuma instituição que a fiscalize, só nos resta aceitar as regras do jogo, que nem sempre conhecemos e com as quais nem sempre concordamos.

O texto da reforma segue à risca os preceitos das convenções de Berna e de Roma, das quais o país é signatário; alinha-se às regras da Organização Mundial do Comércio (OMC);e está em conformidade com nosso Código Civil. O anteprojeto traz ferramentas para que outros formas de arte também recebam direitos autorais, beneficiando diretores, atores, roteiristas, dubladores, fotógrafos e coreógrafos, entre outros.

Nos parece bastante óbvio que quem não quer fiscalização tem que ser fiscalizado. Se, em lugar de negar a supervisão estatal, os gestores do sistema se dispusessem a colaborar com sua experiência de arrecadação e distribuição, estaríamos bem mais avançados no debate. Acreditamos que isso ainda seja possível. Seria o mais sábio. Que a arte nos ilumine e nos faça ir adiante na discussão.

Fonte original aqui.

Banco da Warner Music caiu 72% em cinco anos …

Publicado em: abril 27th, 2011 por Leo Morel | Nenhum comentário

Ações da WMG fecharam em 7,46 dólares na quinta-feira (os mercados estavam fechados para Sexta-Feira Santa). Isso se compara com uma valorização de 24,46 dólares na semana encerrada em 24 de abril de 2006, uma queda de 71,81 por cento sobre na extensão de cinco anos. Em uma base financeira, um recente mergulho profundo pela Digital Music News revelou perdas agregadas de topping $ 10000000000 longo dos últimos dez anos.

Ações da WMG têm rotineiramente mergulhado abaixo de $ 5 no ano passado, e as ações bateram lá embaixo com o valor de US $ 1,68 em 2 de março, 2009. A empresa está atualmente com a aquisição consolidada de entretenimento e oferece mais de US $ 3 bilhões.

(Gráfico completo disponível aqui )

Fonte original aqui.

O visível e o invisível no debate sobre a cultura

Publicado em: abril 26th, 2011 por Leo Morel | Nenhum comentário


Artigo publicado por Rodrigo Guimarães Nunes na Carta Maior:


Deve-se pensar a política de cultura segundo um modelo ultrapassado que funcionava para poucos, ou um novo modelo que cria possibilidades para muitos? Deve-se pensar a partir dos “grandes” consagrados pelas antigas regras do jogo, ou dos “pequenos” e “médios” que jamais “chegarão lá” nos mesmos termos? Da perspectiva de reforçar um sistema que necessariamente cria exclusão e escassez, ou da expansão do número de produtores de cultura que conseguem viver de seu trabalho? A partir da base ou da ponta? O que incomoda é que o novo MinC, que deveria estar puxando esses debates, ou não os compreende, ou cria, sobre eles, uma confusão deliberada.

Cientes da amplitude do apoio às políticas da gestão anterior, os novos ocupantes do MinC têm se apressado em negar qualquer ruptura entre as gestões. Segundo a ministra Ana de Hollanda, “um governo de continuidade pode ter outros focos, o que não significa anular ou inverter o que foi feito.” O que é curioso – e preocupante – nessa tentativa de apresentar os novos rumos como continuação dos antigos é que, sempre que se fala destes, parece ser ou para criticá-los de forma velada, ou para elogiá-los por ser aquilo que não eram. Em outras palavras, talvez na ausência de uma nova agenda ou no temor de publicamente assumi-la, busca-se afirmar uma continuidade com algo que se demonstra desconhecer ou desaprovar.

É uma negação que, pelo jeito de negar, parece confirmar o que nega: “a dama protesta demais”, como disse a mãe de Hamlet, vendo-se representar numa peça de teatro. Justamente por isso convém, à maneira dos psicanalistas, escutar este discurso, para ouvir, naquilo que diz, o que deixa de dizer: o modo como organiza sua luz e suas sombras, como distribui o visível e o invisível.

Até aqui, a maior celeuma envolvendo a nova gestão é a do passo atrás na reforma do direito autoral. Não tanto (ou apenas) pela controvérsia própria ao tema, mas principalmente pela forma como nela se operou. Primeiro, retirando um anteprojeto de lei resultante de um debate de cinco anos, aberto a todos os interessados, com o pitoresco argumento de que este seria, ao mesmo tempo, amplamente desconhecido e rejeitado. Em seguida, substituindo a pessoa que acompanhou todo o processo pela Diretoria de Direitos Intelectuais (DDI) por alguém com vínculos históricos com os maiores interessados em deixar a área como está: o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (ECAD). (Se você quisesse conhecer melhor o trabalho que estava sendo feito antes de você chegar, retiraria do cargo quem melhor o conhecia?) A situação já foi comparada a botar um ruralista para cuidar da reforma agrária, mas se assemelha mais ao “tapetão” de nossos cartolas futebolísticos: onde o time que perdeu “em campo” (no debate de cinco anos) consegue, pela força de seu lobby, não somente marcar um novo jogo, mas indicar o juiz.

Mas não é preciso pôr em dúvida a sinceridade das declarações feitas até aqui para ver problemas sérios. A insistência em alegar ignorância sobre o anteprojeto como razão para retomar a discussão faz suspeitar que os novos responsáveis pela área simplesmente não estavam prestando atenção no que nela ocorreu nos últimos anos – o que necessariamente põe em questão seu preparo para assumi-la. E quando se ouve atenta para o visível e o invisível no discurso, a suspeita só faz se confirmar.

Por exemplo, na declaração da nova titular da DDI de que é preciso “achar um denominador comum” entre os “projetos fantásticos” do “pessoal da mídia livre, para aumentar o acesso à cultura, (…) e os autores”. Ou quando Antonio Grassi, presidente da Funarte, diz que “houve um momento em que se fomentou a importância de fazer inclusão social por meio da arte, e a excelência artística ficou em segundo plano”. Implícita, aqui, está uma distinção entre dois estratos e duas formas diferentes de atuação na área cultural. De um lado, temos os “autores”, indivíduos capazes de uma elaboração artística apurada (“excelência”), que necessita ser tornada mais acessível para o restante da população sem, contudo, pôr em risco sua capacidade de viver daquilo que fazem. Esses são os verdadeiros “produtores” de cultura. De outro lado, temos os difusores, que são mais exatamente prestadores de serviço: prestam o “fantástico” serviço de aumentar o acesso e fomentar a inclusão social por meio da cultura, mas não são realmente “produtores”.

O que há de errado com essa visão? Em primeiro lugar, ela demonstra a não-assimilação da verdadeira inovação da política cultural nos últimos oito anos: a de partir do princípio de que as condições tecnológicas presentes permitem uma democratização antes inimaginável dos meios de produção e circulação de artefatos culturais. Em outras palavras, a política das gestões anteriores do MinC nunca foi meramente de “democratização do acesso” ou de “inclusão social”, porque não visava oferecer as condições para a criação somente de consumidores, mas, principalmente, de produtores de cultura.

O desentendimento parece vir, em segundo lugar, de uma diferença de fundo na maneira de conceber a cultura. Porque, se o antigo MinC chegou a esse tipo de formulação, foi por ter partido do princípio que todos são, sempre, produtores de cultura, sem distinção hierárquica entre a vasta planície e aquele pequeno Parnaso habitado por uns poucos “autores” que, por seu dom de “excelência”, merecem o reconhecimento de todos.

Podemos explicar a diferença com uma metáfora: pode-se pensar a cultura ou como vazio, ou como plenitude. No primeiro caso, temos uma tabula rasa onde a cada tanto um “autor” vem depositar sua criação; essa se difunde, se imita, se dilui, se mistura a outras linhagens, até que um novo “autor” arranque “de seu íntimo” uma nova criação. No segundo caso, há produção e circulação constante, vinda de todos os lados; a “criação” nada mais é que uma recombinação inovadora de diferentes elementos já existentes, um efeito secundário da circulação de ideias, afecções e influências; e o grande “autor” é simplesmente aquele que faz, de uma ampla gama de influências e elementos, uma síntese mais relevante e cheia de significados. (Isso implica, com frequência, que também seja alguém com acesso a uma gama maior, o que é, claro, em parte socialmente determinado. Chico possivelmente ainda seria Chico se não fosse Buarque de Hollanda, mas dificilmente conseguiria ser Chico se fosse o mais reles Silva.)

As diferenças entre as implicações de cada posição podem ser vistas na prática. Reduzir a produção de cultura ao trabalho de um pequeno número de “autores” nos dá uma imagem falseada daquilo que é a cadeia de produção da cultura hoje, bem como quem são seus atores econômicos. A realidade dos pouquíssimos produtores de cultura que conseguem viver de direito autoral é tomada como padrão, e a verdadeira condição da grande maioria dos que trabalham e tentam ganhar a vida com a produção cultural é inteiramente apagada. Um cenário complexo, onde há “pequenos”, “médios” e “grandes” – e onde os grandes são a exceção – é achatado em favor de uma oposição simples entre o Parnaso dos “autores” e a planície dos “usuários”. Para seguir no campo das metáforas futebolísticas, é como pensar o mercado esportivo brasileiro a partir de Ronaldinho, e não da massa de jogadores espalhados em milhares de times pequenos Brasil afora.

Por extensão, também a imagem que se oferece do debate sobre direito autoral será invertida e mistificada. Segundo a ministra, “comentava-se muito no meio cultural que as mudanças estavam deixando o autor em uma situação frágil em vários aspectos”. Já para a nova diretora da DDI, “todo mundo quer ter acesso aos bens culturais (…), mas há pessoas que vivem e dependem desses direitos. Quem produz precisa ser remunerado.” Assim, uma questão que toca a todos que produzem e consomem cultura é transformada numa simples oposição entre “meio cultural” (os “autores”, que vivem de direito autoral) e consumidores (que querem tudo de graça).

A vantagem prática da concepção de cultura do antigo MinC fica clara: partindo dos princípios de que todos são produtores de cultura e de que as transformações tecnológicas são irreversíveis e precisam ter seu potencial produtivo explorado, é possível pensar a produção de cultura como ela realmente é – hoje, nas condições da produção pós-industrial – ao invés de como ela é para os poucos que “chegaram lá” (e conseguiram “ficar lá”) no antigo sistema industrial. Pensar o iceberg a partir não da ponta, mas da base; e eleger a base, não a ponta, como o foco da política pública.

A diferença entre as duas concepções de cultura que se confrontam ao redor do direito autoral não está, como sugere a nuvem de fumaça com que se tenta obscurecer a discussão, no fato de que a chamada “cultura livre” significaria “tudo de graça para todo mundo agora”. “Livre” como em “liberdade de expressão”, não como em “cerveja liberada” (“free” as in “free speech”, not as in “free beer”), como diz o velho lema do movimento de software livre, cujos membros costumam, justamente, ganhar a vida como produtores de software. Fazer-se de desentendido, argumentando que “quem vive de cultura têm direito a uma remuneração”, é mais que dizer o óbvio; é criar um falso debate, protestando contra algo que o anteprojeto não somente jamais propôs, como buscava maneiras de fazer – dentro da nova realidade.

O novo MinC sistematicamente esconde que a lei que se quer reformar é uma das mais restritivas do mundo. Também somem do debate, em passe de mágica igualmente sistemático, as pessoas que vivem de cultura e são a favor da reforma do direito autoral. Não a “arraia-miúda” que é invisível na concepção de cultura da atual gestão, mas gente que deveria contar mesmo na definição rarefeita de “meio cultural”: Ivan Lins, Jair Rodrigues, Ná Ozetti, Francis Hime, Fernanda Abreu e Roberto Frejat, por exemplo. Estes, reunidos no Manifesto da Terceira Via e no Grupo de Ação Parlamentar (GAP), explicitamente defendem “uma política que, sem criminalizar o usuário,
garanta a remuneração dos criadores e seus parceiros de negócios” e o “projeto de reforma da lei 9.610/98, conforme encaminhado em dezembro do ano passado à Casa Civil”. A estes, hoje fora do esquema da grande indústria cultural, somam-se fenômenos pós-industriais como as bandas Teatro Mágico e Móveis Coloniais de Acaju, que, através da internet, conquistaram um público fiel em todo o país sem passar por grandes gravadoras, pagar jabá ou tocar na televisão.

Por aí se vê que não apenas é possível viver de fazer cultura nas novas condições de produção, como que muitos dos que o fazem vêem nelas um potencial emancipador. Por quê? Porque elas representam a possibilidade de realizar aquilo que sempre foi, em potência, a natureza do bem cultural.

Este é, por definição, imaterial e não-escasso: se eu comparto uma ideia, eu não deixo de tê-la. O que a digitalização e a internet permitem é sua difusão em tempo e custo praticamente zero, eliminando a necessidade de materializar-se num objeto material escasso: livros, CDs, DVDs são coisas que, até recentemente, não podiam ser compartilhadas sem perda.

Quem é atingido nessa mudança, então, não é o “criador”, mas os “atravessadores” da indústria cultural. Enquanto o artefato cultural precisava se materializar num bem físico, o produtor de cultura dependia de uma indústria para fazer a intermediação com o público. Essa relação de dependência fazia com que nem autor, nem consumidor saíssem ganhando: a parte do leão ia para o atravessador, que financiava a produção (então muito mais cara), assegurava a divulgação (frequentemente por meio do jabá e da matéria paga) e a distribuição do bem escasso.

Artistas estabelecidos conseguem ganhar mesmo assim: quando o lucro é grande, mesmo uma divisão desigual pode ser vantajosa. Além disso, os produtos comerciais destes artistas costumam ser os mais aquinhoados pelo sistema de financiamento (público) da Lei Rouanet – cuja ironia sem graça é que se investe muito na produção comercialmente viável, e pouquíssimo na que corre riscos. Em outras palavras, se dá dinheiro para aquilo que já ganha dinheiro, e não para aquilo que, justamente, mais precisaria de investimento público. Com isso, o dinheiro do contribuinte financia, não necessariamente a “excelência”, mas certamente o lucro das grandes empresas atravessadoras.

As novas condições tecnológicas barateiam a produção e dão ao produtor a possibilidade de, na posse completa de seu próprio trabalho, chegar diretamente ao público. Isso pôs os atravessadores em crise, e é cada vez menos provável que alguém, hoje, “chegue lá” pelo velho sistema industrial. Quem quiser fazê-lo terá que negociar com departamentos de marketing cada vez menos afeitos aos riscos da “excelência”, e cada vez mais interessados no retorno garantido.

Cabe então perguntar: deve-se pensar a política de cultura segundo um modelo ultrapassado que funcionava para poucos, ou um novo modelo que cria possibilidades para muitos? Deve-se pensar a partir dos “grandes” consagrados pelas antigas regras do jogo, ou dos “pequenos” e “médios” que jamais “chegarão lá” nos mesmos termos? Da perspectiva de reforçar um sistema que necessariamente cria exclusão e escassez, ou da expansão do número de produtores de cultura que conseguem viver de seu trabalho? A partir da base ou da ponta? Essas são as coordenadas do debate que deveria estar se fazendo.

Se se faz a opção por uma concepção democratizante da produção cultural, são bem-vindas as questões sobre “excelência” e “profissionalização” (outro refrão do novo MinC, para falar da necessidade de alterar o funcionamento dos Pontos de Cultura). Se por “profissionalizar” se entende oferecer as condições para a massa de novos produtores de cultura constituírem redes sustentáveis de produção e difusão, introduzindo e adaptando mecanismos do Estado para suprir as necessidades que aí se impõem, não se pode deixar de aplaudir a ideia.

Da mesma forma, se por “excelência” se entende não o banzo do Parnaso perdido, mas uma preocupação com o significado e a relevância do que um contexto muito ampliado de produtores de cultura hoje produz, a demanda é oportuna. É verdade que ainda não apareceram sínteses potentes da incrível e salutaríssima disseminação dos últimos anos. Se pensamos no quanto o acesso à produção e à circulação se ampliaram, o debate cultural e político, de fato, caminha muito atrás da nova realidade. Se pensamos na riqueza do debate sobre as intersecções entre cultura, sociedade e política que se produziu no Brasil nos anos 1960 e 1970, não dá para não pensar que as transformações recentes ainda estão longe de serem elaboradas.

Mas, novamente, a questão é: como queremos chegar a essa elaboração? Partindo do princípio de que, agora que muito mais pessoas podem ter “uma câmera na mão”, o que cabe fazer é criar as condições para uma produção e circulação que nos ponham para pensar seriamente sobre quais são, poderiam ou deveriam ser, hoje, “as ideias na cabeça”? Ou seguir pensando a partir de um velho estado de coisas, onde “uma câmera na mão” era o privilégio de poucos, tivessem eles ou não uma “idéia na cabeça”? São os “autores”, a academia, os intelectuais de todos os tipos que devem dar olhos e ouvidos a esse processo de tomada da palavra, participar dele, e, ao lado de seus novos atores, ajudar a refleti-lo e elaborá-lo. A “excelência”, se vier, virá desse movimento de incorporar-se a essa nova realidade; não de uma auto-referência que, porque só vê a si mesma como produtora de cultura, não consegue enxergá-la.

Talvez mais do que as medidas já tomadas, o que incomoda é que o novo MinC, que deveria estar puxando esses debates, ou não os compreende, ou cria, sobre eles, uma confusão deliberada. Quando o ministério da Cultura (do PT!) e a bancada ruralista estão falando a mesma língua, é de se pensar… Mas a identidade entre os discursos de Kátia Abreu e de Ana Hollanda se entende: enquanto a primeira repete a desinformação espalhada pela segunda, a segunda mobiliza os bichos-papões cansados da oposição mais rasteira – por exemplo, quando diz que supervisionar uma altamente opaca organização privada que presta um serviço público e é fortemente criticada por membros da própria classe que supostamente representa (o ECAD) seria “intervencionismo do Estado”.

(Como sói acontecer, a democracia e a não-intervenção estatal são boas para algumas coisas, e não para outras: depois de finalmente disponibilizar o texto do anteprojeto no site do ministério, abriu-se uma consulta pública – em que os comentários, ao invés de ficarem à vista de todos, fomentando o debate, devem ser enviados por email…)

É problema da presidenta que uma ministra sua municie a oposição com argumentos contra o governo. É problema de todos os que ajudaram a eleger a presidenta que uma ministra sua esteja indo contra o programa de governo no qual votaram. Mas, acima de tudo, é problema de quem deseja que o Brasil “continue mudando” ver que o novo MinC pensa de maneira mais velha que o antigo. Se a direção da mudança era democratizante e universalizante, a concepção da nova gestão, até aqui, tem se mostrado, nas linhas e nas entrelinhas, elitizante e particularista. E o que é pior: além de dar as respostas erradas, parece trabalhar para que não se consiga fazer as perguntas certas.
Fonte original aqui.